A vitória de Lula tende a manter a construção civil como motor de desenvolvimento, com demanda induzida pelo Minha Casa, Minha Vida e pelo Novo PAC — o que favorece habitação popular e infraestrutura, enquanto reformas e pequenas obras devem encontrar um mercado mais frio. O novo mandato encontra um setor pressionado por juros altos, crescimento modesto, confiança baixa e custos elevados, e a trajetória da Selic é o que mais vai pesar no resultado das obras.
A eleição acabou, o resultado está dado e, como sempre acontece depois de uma virada de ciclo político, a pergunta que mais circula entre engenheiros, arquitetos, construtores e incorporadores é: e agora, o que muda para o nosso mercado?
Este texto não é um editorial a favor nem contra. O objetivo é dar um norte para você, engenheiro, se posicionar na fatia do mercado que pode surfar melhor a projeção para os próximos anos. Para isso, vamos olhar para os fatos: o que os três mandatos anteriores de Lula mostram sobre a relação do seu estilo de governo com o setor AEC (Arquitetura, Engenharia e Construção), em que cenário econômico ele chega agora e o que o ritmo da economia global adiciona a essa conta. No fim, juntamos tudo numa leitura prática de quais segmentos tendem a ficar aquecidos e quais devem esfriar.
O que os três mandatos anteriores mostram
O padrão histórico é conhecido: governos de Lula tendem a tratar a construção como motor de desenvolvimento e de emprego, com o Estado atuando como indutor de demanda. Na prática, isso aparece em três frentes:
- Habitação popular com subsídio e crédito público. O Minha Casa, Minha Vida nasceu em 2009 e foi relançado em 2023. Para quem trabalha com incorporação e obras residenciais, é uma fonte relevante de demanda, principalmente nas faixas de renda menores.
- Infraestrutura planejada pelo governo federal. Do PAC, lançado em 2007, ao Novo PAC, de 2023, o modelo é de uma carteira de obras de saneamento, transporte, energia e habitação, combinando orçamento público, estatais e parcerias com o setor privado.
- Crédito e mercado de trabalho aquecidos. Nos dois primeiros mandatos, o boom de commodities, o crescimento do crédito e a renda em alta criaram um ciclo forte para a construção. No mandato de 2023 a 2026, o setor também gerou muito emprego formal, com mais de 3 milhões de trabalhadores de carteira assinada na construção em abril de 2026, segundo o Novo Caged.
O outro lado da moeda também faz parte do histórico. Um modelo que depende muito de gasto público e de crédito induzido pode pressionar as contas do governo, e isso costuma voltar para o setor na forma de juros mais altos, que são justamente o principal inimigo de quem constrói e financia imóveis. Críticos apontam esse risco; defensores respondem que o investimento em habitação e infraestrutura se paga pelo crescimento que gera. As duas leituras têm argumentos reais, e o que importa para quem atua no mercado é acompanhar qual delas prevalece na prática.
O cenário que o próximo mandato encontra
O novo governo, que toma posse em 1º de janeiro, não herda um setor em franco crescimento nem em crise, mas um setor pressionado:
- Juros altos por tempo prolongado. A Selic chegou a 15% em 2025 e o ciclo de queda só começou em março de 2026. Desde então foram cinco cortes seguidos de 0,25 ponto, e a taxa está hoje em 13,75% ao ano, segundo a decisão do Copom de 16 de setembro de 2026 — ainda um patamar alto. A CBIC aponta os juros como o principal entrave do setor.
- Crescimento mais modesto. O PIB da construção cresceu 4,2% em 2024, desacelerou para 0,5% em 2025 e a CBIC projeta 1,2% para 2026. O segundo trimestre de 2026 teve queda de 0,4%, embora o semestre feche positivo, com alta de 1,1%.
- Confiança baixa. O índice de confiança dos empresários da construção chegou ao menor patamar médio em dez anos, mesmo com o emprego ainda firme.
- Custos elevados. Mão de obra disputada e insumos caros comprimem a margem das obras.
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Selic (pico em 2025) | 15% |
| Selic atual (desde 16/09/2026, após 5 cortes) | 13,75% |
| PIB da construção 2024 | +4,2% |
| PIB da construção 2025 | +0,5% |
| PIB da construção 2026 (projeção CBIC) | +1,2% |
| Empregos formais na construção (abr/2026) | mais de 3 milhões |
O desafio central, portanto, não é só "quanto o governo vai investir", mas como o governo vai conduzir a política fiscal e a relação com o Banco Central, já que disso depende a trajetória dos juros.
Além disso, estamos passando por uma época com muitas novidades jurídicas e contábeis:
- Fim da Escala 6x1 — que pressiona ainda mais a dificuldade com mão de obra, uma preocupação real do setor há pelo menos 18 meses. Fiz a conta do impacto no custo da obra no post Fim da Escala 6x1 na Construção Civil.
- Reforma Tributária — sem sabermos ainda, exatamente, quais serão as alíquotas finais de cada setor. O que já se sabe sobre IBS, CBS e a NFBI está em Como a Reforma Tributária Impacta a Construção Civil.
- Fim da Desoneração da Folha — que já está em andamento há mais tempo, mas ainda tem marcos significativos por chegar.
Estilo de governo e economia: oportunidades e pontos de atenção
Oportunidades
- Demanda induzida. Continuidade do Minha Casa, Minha Vida e do Novo PAC tende a sustentar o volume de obras de habitação, saneamento e infraestrutura.
- Crédito habitacional. As novas regras de financiamento com recursos da poupança devem injetar cerca de R$ 37 bilhões em crédito habitacional, segundo a CBIC.
- Reforma tributária. A transição do novo sistema de impostos vai até 2033. Quem se organizar cedo, entendendo o impacto sobre cadeia de suprimentos, contratos e preço de venda, sai na frente.
Pontos de atenção
- Equilíbrio ou desequilíbrio fiscal. O mercado vai observar se as metas fiscais serão cumpridas. Sinais de descontrole costumam encarecer o crédito, o que pesa no setor.
- Dependência de recursos públicos. Obras ligadas a orçamento federal estão sujeitas a contingenciamentos e a ritmos políticos.
- Relação com o setor privado. Previsibilidade de regras, segurança jurídica em concessões e parcerias e diálogo com entidades como a CBIC e os sindicatos da indústria pesam muito na decisão de investir.
O ritmo da economia global e o dólar
Nenhum governo controla o ambiente externo, e ele vai influenciar o setor tanto quanto Brasília. O quadro geral é de crescimento mundial moderado, comércio internacional mais fragmentado e tensões geopolíticas que afetam câmbio e preço de insumos dolarizados. Isso chega à obra por vários caminhos:
- Juros internacionais. Quanto mais os grandes bancos centrais reduzirem juros, mais espaço o Brasil tem para fazer o mesmo sem pressionar o câmbio.
- Commodities e China. O desempenho do setor imobiliário e da indústria chinesa influencia o preço de aço, minério e outros insumos, e a renda do agronegócio e da mineração, que movem obras em várias regiões.
- Transição energética e digital. Energia renovável, data centers, logística e eficiência energética são frentes de investimento global que abrem demanda para engenharia e construção, independentemente da cor do governo.
O Brasil tem a vantagem de ser um grande mercado interno e com carência real de habitação e infraestrutura, o que dá ao setor um piso de demanda em quase qualquer cenário.
O próprio presidente Lula já anunciou também que trará investimentos internacionais para construção de data centers no Brasil, o que é uma promessa positiva para o nosso setor AEC.
Onde se posicionar: os segmentos que surfam melhor a projeção
Juntando o histórico, o cenário atual e o ambiente externo, dá para fazer uma leitura de quais fatias do mercado tendem a ter demanda — e quais devem sofrer mais. É aqui que este artigo quer chegar: ajudar você a escolher onde concentrar energia, carteira e aprendizado.
| Segmento | Tendência | Por quê |
|---|---|---|
| Habitação do Minha Casa, Minha Vida | Mercado garantido | Demanda induzida pelo governo e crédito habitacional com recursos públicos e da poupança |
| Infraestrutura (rodovias, saneamento, energia) | Mercado garantido | Carteira do Novo PAC, concessões e parcerias, além da carência real do país |
| Data centers e transição energética | Oportunidade nova | Investimento global e anúncio de investimentos internacionais em data centers no Brasil |
| Reformas | Provavelmente sem aquecimento | Dependem do bolso de famílias e empresas, num cenário de juros altos e confiança baixa |
| Pequenas obras | Provavelmente não compensa | Custos de mão de obra e insumos elevados comprimem margens que já são apertadas |
Quem continua tendo mercado
Empresas do Minha Casa, Minha Vida, apesar de qualquer cenário econômico, continuarão tendo mercado. O programa é uma marca dos governos Lula e é sustentado por subsídio e crédito público, que não dependem do humor do mercado financeiro na mesma medida que o crédito privado.
Empresas de infraestrutura — rodovias, saneamento, energia — também. A carteira do Novo PAC, as concessões e a carência real de infraestrutura do país dão a esse segmento um piso de demanda. O ponto de atenção é o risco de contingenciamento em obras que dependem diretamente do orçamento federal.
Quem deve sentir mais
Será que construtoras de reforma vão ter mercado aquecido? Na minha leitura, provavelmente não. Reforma não entra nos programas de demanda induzida e depende do dinheiro e da confiança de famílias e empresas — justamente o que juros altos e confiança baixa costumam frear.
E pegar pequenas obras, faz sentido nessa projeção? Provavelmente não. Com mão de obra disputada, insumos caros e a pressão extra do fim da escala 6x1, a margem de obras pequenas fica ainda mais apertada — e quantidades pequenas já custam proporcionalmente mais, como mostrei no post Por Que Serviços de Quantidade Pequena Têm Custo Mais Alto.
O que acompanhar nos próximos meses
- A indicação da equipe econômica e o sinal que ela dá sobre as contas públicas.
- A trajetória da Selic nas próximas reuniões do Copom.
- O orçamento de 2027 e a prioridade dada a habitação e infraestrutura.
- O cronograma de regulamentação da reforma tributária.
- A evolução dos custos de materiais e de mão de obra.
É possível prosperar em qualquer governo
As duas últimas décadas mostram algo que vale mais do que qualquer previsão: a construção civil brasileira já cresceu forte em governos de perfis muito diferentes e já sofreu com juros e crises em todos eles. Ciclos políticos e econômicos vão e voltam. O que se mantém é que o país precisa de casas, saneamento, mobilidade, energia e profissionais capazes de entregar isso com qualidade.
E há uma base que sustenta tudo isso: enquanto o Brasil seguir como um Estado Democrático de Direito, com instituições funcionando, e mantiver uma economia de mercado, aberta ao capital e ao investimento privado, haverá espaço para quem constrói prosperar — qualquer que seja o governo da vez.
Quem prospera, em qualquer cenário, costuma ter em comum algumas atitudes:
- Estudar além do básico: gestão de custos, BIM, sustentabilidade, orçamento e planejamento de obras.
- Entender de números: margem, fluxo de caixa, financiamento e impacto tributário.
- Cuidar de reputação e relacionamento, porque no nosso mercado a indicação ainda é o principal canal de oportunidade.
- Manter reserva e flexibilidade para atravessar os períodos de juros altos.
- Seguir investindo na própria carreira, porque o conhecimento é o único ativo que nenhuma eleição, taxa de juros ou crise consegue tirar de você.
O governo define parte do cenário, mas a sua trajetória profissional é construída por escolhas que você faz todos os dias. Então, continue estudando, continue trabalhando e continue investindo em você. O mercado sempre abre espaço para quem se prepara.
Perguntas frequentes
O que a vitória de Lula significa para a construção civil?
Historicamente, os governos Lula tratam a construção como motor de desenvolvimento e emprego, com demanda induzida pelo Minha Casa, Minha Vida, pelo Novo PAC e por crédito público. A tendência é de continuidade desses programas.
Em quais segmentos o engenheiro deve se posicionar?
Habitação do Minha Casa, Minha Vida e infraestrutura (rodovias, saneamento, energia) tendem a manter mercado em qualquer cenário, e data centers e transição energética surgem como oportunidades novas. Reformas e pequenas obras provavelmente não terão mercado aquecido, por dependerem do bolso de famílias e empresas e por terem margens mais apertadas.
Qual é o maior risco para o setor no novo mandato?
A condução fiscal. Sinais de desequilíbrio nas contas públicas costumam encarecer o crédito, e os juros altos — com a Selic ainda em 13,75% ao ano, mesmo após cinco cortes seguidos em 2026 — já são apontados pela CBIC como o principal entrave do setor.
O que acompanhar nos próximos meses?
A equipe econômica indicada, a trajetória da Selic nas reuniões do Copom, o orçamento de 2027 para habitação e infraestrutura, a regulamentação da reforma tributária e a evolução dos custos de materiais e mão de obra.
Fontes consultadas: CBIC (Agência CBIC e Informativos Econômicos, 2025 e 2026), CNI/CBIC (nível de atividade da construção), Novo Caged/MTE, TSE e imprensa nacional sobre o calendário eleitoral.