Em obras que estão começando, o serviço de limpeza de terreno costuma ser tratado como trivial e barato — mas dois pontos desse escopo exigem atenção redobrada no orçamento. O primeiro é confiar que a composição de limpeza do SINAPI cobre o corte de qualquer árvore do lote, quando na verdade ela tem limite de diâmetro e de altura. O segundo é a quantidade de carga e transporte gerada pela limpeza: feita a conta certa, ela até bate com o orçamento, mas só porque soma o volume de solo com o volume de vegetação cortada — algo que a própria composição do SINAPI não deixa claro. Veja os dois pontos antes que eles virem prejuízo no seu orçamento.

O escopo inicial de uma obra nova

Em uma nova obra que está para começar, o escopo de orçamento costuma seguir esta sequência: limpeza mecanizada do terreno, carga e descarga do material removido, transporte até o bota-fora e, na sequência direta, a escavação do subsolo.

Tabela de escopo orçamentário do serviço 4.1.1 Limpeza, com os itens de limpeza mecanizada (98525), carga e descarga (100980) e transporte (95877) do SINAPI
Escopo inicial de limpeza do terreno: limpeza mecanizada, carga/descarga e transporte.

Ao analisar a adequabilidade desse escopo à obra real durante a visita técnica, o escopo pareceu incompleto por dois motivos:

  • Limitação de diâmetro das árvores cortadas na composição de limpeza;
  • Relação inconsistente entre as quantidades de limpeza, carga e transporte.

Os dois pontos, se ignorados, têm o mesmo efeito prático: fazer a obra começar com fluxo de caixa negativo sem necessidade.

Problema 1: limitação de diâmetro das árvores cortadas

O serviço 4.1.1.1 diz claramente "pequenas árvores", ou seja, "diâmetro de tronco menor que 0,20 m". Só que, na obra em questão, havia mangueiras de 60 cm de diâmetro, árvores típicas do cerrado com 30 cm de diâmetro e outras espécies acima dos 20 cm limitados pela composição — "arvrinhas parrudas", como se diz no interior de Goiás.

Para confirmar o limite, vale ir direto ao Caderno Técnico da composição 98525 do SINAPI. No Quantify, isso é feito pelo módulo de Pesquisa SINAPI:

Menu de ferramentas do Quantify com a opção Pesquisa SINAPI destacada
Abrindo a Pesquisa SINAPI no Quantify.

Localizando a composição pelo código:

Busca pelo código 98525 na Pesquisa SINAPI do Quantify, retornando a composição de Supressão Vegetal
Composição 98525 localizada pelo código na Pesquisa SINAPI.

E, dentro da composição, a aba de Caderno Técnico é a forma mais rápida de ler os critérios reais de qualquer composição do SINAPI:

Tela da composição 98525 aberta no Quantify com a aba Caderno Técnico destacada
Aba de Caderno Técnico dentro da composição — o caminho mais rápido para os critérios de aferição.

Conferindo o caderno:

Seção Critérios de Aferição do Caderno Técnico da composição 98525, mostrando o limite de 5 metros de altura e 15 cm de espessura de solo
Critérios de aferição: árvores até 5 m de altura e 15 cm de espessura de solo removido junto com a vegetação.

A composição 98525 inclui a limpeza da vegetação rasteira e árvores com tronco de diâmetro até 0,20 m — mas também limita essas árvores a até 5,00 m de altura. Ou seja, parte das árvores do lote precisa ser precificada além desse item de limpeza. É preciso mapeá-las, medir diâmetros e alturas, e calcular à parte o serviço de corte. Confiar que a limpeza de vegetação já envolve o corte de todas as árvores é prejuízo certo.

Outro ponto importante: o Caderno Técnico considera uma espessura de 15 cm de solo da camada vegetal sendo retirada junto da vegetação. Faz sentido — quando a máquina (ou até o capinador com enxada) retira grama, ervas daninhas ou arbustos, ela carrega junto a camada mais superficial do solo. Ao levar essa vegetação para o caminhão, é inevitável que parte do solo vá junto, então a composição já embute um rebaixamento geral no terreno.

Isso pode suscitar outra dúvida: não seria necessário um aterro para compensar e devolver o nível ao zero original? Depende do que o projeto arquitetônico prevê e se há escavação de subsolo no terreno — se houver, ou se for apenas terraplenagem sem depósito de solo externo, isso já resolve a questão. Mas vale ficar atento: outras composições do SINAPI consideram rebaixamento de 20 ou 30 cm, o que pode gerar diferença substancial nos níveis do terreno.

Problema 2: relação entre as quantidades de limpeza, carga e transporte

Verificando as quantidades lançadas no orçamento, algo não parecia bater de cara. Se há 14.474,79 m² de área para limpeza mecanizada, e no mínimo 15 cm de solo será removido junto (como visto no Caderno Técnico), o esperado seria 0,15 × 14.474,79 = 2.171,219 m³ de carga, manobra e descarga.

Tabela de escopo com a quantidade de 3.618,6975 m³ de carga, manobra e descarga destacada em vermelho
A quantidade lançada de carga, manobra e descarga: 3.618,6975 m³.

Só que a quantidade lançada é de 3.618,6975 m³ — vale uma dica extra aqui: em obras públicas, siga a recomendação do TCU e trunque quantidades e valores em duas casas decimais (não arredonde, trunque). A diferença entre 3.618,6975 m³ e 2.171,219 m³ é de 1.447,479 m³, o que corresponde a 66% de aumento.

Esse aumento é, em parte, explicado pelo Efeito de Empolamento do solo e da vegetação retirados que estão sendo transportados — prática completamente correta. Mas 66% de empolamento seria demais para esse tipo de material. Faz sentido desconfiar.

E faz sentido mesmo: além dos 15 cm de solo cortados (que resultam nos 2.171,219 m³), há também a vegetação superficial e as árvores de até 20 cm que foram cortadas. Considerando que essa camada de vegetação e galhada ocupe o equivalente a mais 5 cm de altura em toda a área limpada, chegamos a mais 723,7395 m³ de carga só de resíduo vegetal. Somando os dois volumes, o total de carga antes do empolamento sobe para 2.894,9585 m³. Aplicando agora um empolamento de 25% — taxa bem mais coerente para solo e vegetação — chegamos a 3.618,69 m³, batendo exatamente com o valor do orçamento contratado.

Ou seja: a quantidade lançada no orçamento está correta. O problema não é a conta — é que ela só fecha se você souber separar, mentalmente, quanto vem do solo (15 cm) e quanto vem da vegetação cortada (equivalente a mais 5 cm). Sem essa decomposição, um orçamentista revisando essa quantidade tende a desconfiar de um número que parece inflado, quando na verdade está certo.

📊 Exemplo prático Para 14.474,79 m² de área: 15 cm de solo dão 2.171,22 m³; some ~5 cm equivalentes de vegetação e árvores cortadas (723,74 m³) e chega-se a 2.894,96 m³ antes do empolamento. Aplicando 25% de empolamento, o total bate exatamente com os 3.618,69 m³ lançados no orçamento.

Uma provocação ao SINAPI

Ao elaborar uma composição que expressa em área (m²) tanto a limpeza de vegetação quanto o corte das árvores, o próprio SINAPI deveria ter criado um coeficiente de entulho gerado, publicado no próprio Caderno Técnico — o mesmo tipo de árvore de fatores que já existe para diferenciar outros serviços, como o tipo de bloco ou o preparo de argamassa numa alvenaria. Se o SINAPI aferiu em campo quanto de insumo é consumido para limpar X m² de vegetação e árvores até 20 cm de diâmetro, também poderia ter aferido quantos m³ de carga resultam dessa operação.

Assim teríamos, por exemplo, um coeficiente de 0,285 m³ de carga para cada 1 m² de limpeza, já escrito no Caderno Técnico — o que não só facilitaria os cálculos futuros, como padronizaria esse tipo de orçamento entre diferentes profissionais, cumprindo o objetivo do SINAPI de padronizar e viabilizar orçamentos mais completos e coerentes nas obras públicas nacionais. Da mesma forma, seria útil que o Caderno Técnico já indicasse qual Fator de Empolamento deveria ser utilizado — mas aí já é pedir demais.

Além disso, há uma segunda provocação, essa mais de fundo: eu, pessoalmente, não concordo com a decisão técnica de embutir o corte de árvores de até 5,00 m de altura e 20 cm de diâmetro dentro de uma composição medida em área. Limpar 1.000 m² de grama é um esforço muito menor do que limpar 1.000 m² de matagal com 500 árvores de 5 m de altura por 20 cm de diâmetro no meio — e a composição trata os dois cenários como se fossem o mesmo serviço, só porque a área é igual.

Do ponto de vista da evolução dos custos, o cálculo ideal seria ter duas composições independentes: uma para limpeza de vegetação superficial, medida em área (m²), e outra para corte de árvores, medida em comprimento (m) ou em unidades (und). Isso tornaria o orçamento sensível à real densidade de árvores do terreno, em vez de tratar um lote raso e um lote arborizado com o mesmo coeficiente.

Conclusão

Nenhuma composição de referência, por mais detalhada que seja, substitui a leitura do Caderno Técnico e a conferência de campo. No caso da limpeza de terreno, o risco não está em usar o código errado do SINAPI, mas em não decompor o que está por trás de um único item medido em m²: ele tem limite de diâmetro, limite de altura, e um volume de carga que só fecha quando se separa o que é solo do que é vegetação cortada. Entender essa lógica antes de fechar o orçamento é o que evita desconfiar de uma conta certa — ou, pior, replicar uma conta errada — e é o que separa uma obra que começa com fôlego de caixa de uma obra que já nasce devendo.

Perguntas frequentes

A composição 98525 do SINAPI cobre árvores de qualquer tamanho?
Não. Ela cobre apenas a limpeza de vegetação rasteira e árvores com diâmetro de tronco menor que 0,20 m e até 5 m de altura. Árvores maiores precisam ser mapeadas, medidas e orçadas à parte.

Por que o volume de carga e transporte da limpeza de terreno é maior do que o esperado só pela espessura de solo?
Porque, além da espessura de solo removida junto com a vegetação (15 cm, segundo o Caderno Técnico da composição 98525), soma-se o volume da própria vegetação e das árvores cortadas — o equivalente a mais alguns centímetros de altura em toda a área — antes de aplicar o fator de empolamento do material transportado.